A Fotografia Como Corpo Performatizado: a autoridade de imagem construída

 

A fotografia, desde seu início, selou um pacto com a representação para formar sua noção de imagem. Pensar a fotografia sob a autoridade da imagem construída, como afirma Michel Poivert, é uma das propostas desta exposição, que trata de determinadas práticas fotográficas como cristalização de ações corporais performatizadas. Pode-se lembrar que o gesto inaugural em relação ao corpo performatizado foi a conhecida obra Autoportrait em noyé (1840), de Hippolyte Bayard.

A performatividade do corpo registrada pela fotografia revela que esta não se configura como seu antigo ofício de ser uma janela aberta para documentar um mundo real, mas como um espaço cênico. Programar e executar ações de naturezas diversas, enquadradas para o perímetro ótico da lente de uma câmera, é o que define o limite do espaço de atuação do performer. Este, embora tenha consciência da presença do aparelho, age imbuído de suas próprias expressões corporais, como se não estivesse diante da retina ótica que o registra e que raramente seu olhar enfrenta – a câmera. Trata-se de uma relação intrínseca do dispositivo do corpo consigo mesmo. Nisto, distancia-se do tradicional retrato posado, que justifica a presença do fotografado que olha para a câmera buscando uma relação de cumplicidade com o fotógrafo.

Performar uma imagem, engendrar uma ação, é fazer uma imagem como um gesto; não tem a intenção primeira de produzir uma mensagem, mas de abrir um sentido. Nas fotoperformances, todos os olhares dos observadores estão colocados no ponto de vista da câmera. Por isso, mais importante que dar voz à singularidade do fotógrafo, é conceber uma imagem como transparência, como se fosse um espaço envidraçado, pois o interesse não está na ideia do fotógrafo como autor, mas na ação do performer – o registro como um olhar ausente. A imagem performada possui uma dupla natureza – como imagem construída de artifício e como instantâneo -, embora este se apresente, por vezes, mascarado.

Do corpo imóvel ao corpo em movimento, os trabalhos dos artistas criam ficções que expõem naturezas singulares de representações: corpos que habitam espaços internos e externos, urbanos e na natureza; corpos exploratórios de objetos; corpos desnudos e vestidos com roupas e tramas; corpos mergulhados que flutuam; corpos em foto-sequências; faces que observam e que se ocultam. Não são fotoperformances coletivas, mas ações individualizadas. Esta exposição agrega trabalhos de artistas com longa trajetória e de jovens artistas, todos interessados na cumplicidade da investigação sobre o corpo performatizado: Carla Borba, Chana de Moura, Claudia Paim, Clóvis Dariano, Danny Bittencourt, Elaine Tedesco, Elcio Rossini, Giordana Winckler, Laura Ribero, Liana Keller/Ana Cândida Lima, Natalia Schul, Silvia Giordani e Stephanny Lotus.

Dra. Niura Legramante Ribeiro

Instituto de Arte, UFRGS

POIVERT, Michel. La Photographie Contemporaine. Paris: Flammarion, 2010, p. 213.

Inanimados

Inanimados, 2012. Objeto fotográfico, 20 x 21 x 2 cm.